domingo, 9 de outubro de 2011

Sísifo enamorado

que tragédia
o desejo escreve;
onde nada aplaca
tudo esfalece
e o contigo do amor
é uma equação de tempo
amortizada em zero,
em nada
em tudo de novo.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Não-eu arquivado

esqueceram de por em registro
que fui riscado a giz;
que brisa qualquer  
me fragmenta o contorno.

versaram nomes,
datas e desejos parentais.
falaram de muita coisa,
menos de mim.

naquele cartório,
eu sou o que falta,
em letra
e pessoa.

deram-me pais...
deram-me pais!
um dia volto lá e digo
que quem anda me parindo

é o tempo.

numa puta sa’labuta
chamada mundo.
aqui leitor,
não há espaço pra choro.

só força.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Saudade

Hoje à noite, sou chuva e saudade. E, aqui, a sós, não há parede que discorde disso. Caio em gotas e escoo em correntes para a mesma lembrança. Há dias que Ela me furta o encontro. Então, qualquer acorde mal posto me faz criança de vontades não atendidas. Consolo algum me engana o querer. E, olhando de perto, só existe um capricho que reclamo: a dona daquela voz. O seu sorriso não me respeita. Invade. Não cede à minha esquiva. Com graça insiste em me saquear a atenção. E o que diria eu dos seus gestos? Estão alheios a toda sorte de definição. Lecionam elegância com destreza e, quem os vê, não nega sua verdade. Todavia, devo dizer que foi seu canto, e não a imagem, quem primeiro me atingiu. Disperso, fui tocado por aquele verbo esticado, sem dono, frágil, febril. Ah, aquela voz me entorpeceu! Como efeito, qualquer traço de semelhança, em hino, prosa ou poesia, me faz lembrar da moça, que não sustenta cenhos no grito, só silêncio em tempos de saudade.