quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Protesto pela vida concreta

De nutrir virtualidades, engordei longas histórias de ausência. Corri veloz por circuitos de mim mesmo; criminalizei a experiência de ser-com-risco, de ser-sem-aviso, de ser receptivo. Forjei lugares sem franquia para o trauma e, que paz obtive? Hoje se alvoroça uma multidão nos portões da pele cobrando o suor que há noites não encontra par. Intercedem pelos olhos que encarcerados em luzes, LEDs e outros espelhos de engano, desconhecem o benefício da visita. Que vida, que rua lá fora, que sorriso trocado resistirá a esse protesto? Eu sinto que não caibo na espera por ser. Meus pés desejam casar-se com as esquinas e outras curvas que escondem caminhos, portos, amores concretos. Então, que se abram os portões. Que se aproximem e testemunhem os abraços, os cheiros, a cama quente e o cansaço de ser sob o sol o que falta nessas redes de distância, ciberalianças, decalques de falta, sombras de coisa nenhuma.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Meu bem, meu bem... Já fomos mais que curtidas nas mãos um do outro. Tua distância anuncia o inverno das cores. Vê lá fora? Tudo se inclina ao cinza. Sinto que hoje o céu dos meus olhos também amanheceram fechados. Carregados de nuvens estão e ameaçam chorar as mais ácidas gotas. Que caiam elas e corroam o afeto ou o veto que nos enterra sob sete palmos de saudade.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Caminho de muitos pés

Não é de agora a minha caminhada. Devo dizer: por mares e terras eu vaguei. Eu trago marcas antigas... Dores antigas. Os meus pés pretos, os meus olhos amarelados, encardidos de choro, desde o moinho se veem cativos. Não bastasse o passo, me cegaram os tambores, os sabores, a reza de África. Das caravelas às favelas eu grito, persisto e talvez por isso, com a garganta arranhada, sejam os punhos cerrados quem agora queiram falar. As ancestralidades em mim já não têm paciência, pedem pressa. O nosso sangue ainda lava as ruas sujas de comício. No morro, caem aviões fora do horário nobre: erês de dez, doze, quatorze anos de asas cortadas. E quem poderá cobrar calma, senhor, quando o dedo a disparar for o nosso? Quem reclamará piedade cristã quando as rainhas pretas, aqui violadas, parirem sua ira? Escuta: os quilombos vivem! Os quilombos em nós crescem. Os quilombos aprendem com o seu passado. E se é do presente que precisamos tratar, que todo prato fundo e vazio nos ensine a medida da trincheira; no congresso, que todo corte fira de morte o engano da conciliação; e que toda bala perdida-encontrada no corpo preto encha também as ruas do gueto de gritos e marchas por uma revolução. Nesse dia, os antigos e os mais novos se encontrarão num abraço. Os olhos encardidos que com lágrimas lavaram senzalas, pelos nossos brilharão ao som de tambores. Dandara, machucada pelas dores da Roçinha, se sentará à mesa. Zumbi, rei da República de Palmares, sorrirá místico como o Pelourinho. Chegaremos de todos os cantos para o banquete e os anos de opressão serão poucos para saciar tamanha fome de liberdade que tem o meu povo.