Não é de agora a minha
caminhada. Devo dizer: por mares e terras eu vaguei. Eu trago marcas antigas...
Dores antigas. Os meus pés pretos, os meus olhos amarelados, encardidos de choro,
desde o moinho se veem cativos. Não bastasse o passo, me cegaram os tambores,
os sabores, a reza de África. Das caravelas às favelas eu grito, persisto e talvez
por isso, com a garganta arranhada, sejam os punhos cerrados quem agora queiram
falar. As ancestralidades em mim já não têm paciência, pedem pressa. O nosso
sangue ainda lava as ruas sujas de comício. No morro, caem aviões fora do
horário nobre: erês de dez, doze, quatorze anos de asas cortadas. E quem poderá
cobrar calma, senhor, quando o dedo a disparar for o nosso? Quem reclamará piedade
cristã quando as rainhas pretas, aqui violadas, parirem sua ira? Escuta: os
quilombos vivem! Os quilombos em nós crescem. Os quilombos aprendem com o seu
passado. E se é do presente que precisamos tratar, que todo prato fundo e vazio
nos ensine a medida da trincheira; no congresso, que todo corte fira de morte o
engano da conciliação; e que toda bala perdida-encontrada no corpo preto encha também
as ruas do gueto de gritos e marchas por uma revolução. Nesse dia, os antigos e os
mais novos se encontrarão num abraço. Os olhos encardidos que com lágrimas
lavaram senzalas, pelos nossos brilharão ao som de tambores. Dandara, machucada
pelas dores da Roçinha, se sentará à mesa. Zumbi, rei da República de Palmares,
sorrirá místico como o Pelourinho. Chegaremos de todos os cantos para o
banquete e os anos de opressão serão poucos para saciar tamanha fome de liberdade
que tem o meu povo.