quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Caminho de muitos pés

Não é de agora a minha caminhada. Devo dizer: por mares e terras eu vaguei. Eu trago marcas antigas... Dores antigas. Os meus pés pretos, os meus olhos amarelados, encardidos de choro, desde o moinho se veem cativos. Não bastasse o passo, me cegaram os tambores, os sabores, a reza de África. Das caravelas às favelas eu grito, persisto e talvez por isso, com a garganta arranhada, sejam os punhos cerrados quem agora queiram falar. As ancestralidades em mim já não têm paciência, pedem pressa. O nosso sangue ainda lava as ruas sujas de comício. No morro, caem aviões fora do horário nobre: erês de dez, doze, quatorze anos de asas cortadas. E quem poderá cobrar calma, senhor, quando o dedo a disparar for o nosso? Quem reclamará piedade cristã quando as rainhas pretas, aqui violadas, parirem sua ira? Escuta: os quilombos vivem! Os quilombos em nós crescem. Os quilombos aprendem com o seu passado. E se é do presente que precisamos tratar, que todo prato fundo e vazio nos ensine a medida da trincheira; no congresso, que todo corte fira de morte o engano da conciliação; e que toda bala perdida-encontrada no corpo preto encha também as ruas do gueto de gritos e marchas por uma revolução. Nesse dia, os antigos e os mais novos se encontrarão num abraço. Os olhos encardidos que com lágrimas lavaram senzalas, pelos nossos brilharão ao som de tambores. Dandara, machucada pelas dores da Roçinha, se sentará à mesa. Zumbi, rei da República de Palmares, sorrirá místico como o Pelourinho. Chegaremos de todos os cantos para o banquete e os anos de opressão serão poucos para saciar tamanha fome de liberdade que tem o meu povo.

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