domingo, 20 de outubro de 2013

Vale do Jiquiriçá
Meia dúzia de rugas bem escritas, borrões que deixam ver no fundo gestos apagados e uma nota de reparação, foi o que me deixou escrito num espelho. Nenhum batom vermelho, dedos num vidro embaçado ou adesivo na silhueta: escreveu com horas sulcos e durezas no meu corpo. Marcas que o zelo nos olhos não confessa sem amargurar o riso, nem supera sem o amparo de uma ilusão. Na testa, uma coleção de manhãs. E são tantas! No peito, um choro vertido, um soluço calmo. Na boca, a saudade do beijo que guarda um convite e desobriga os pés da procura. Silêncio nos ouvidos – e isso foi o que de ganho teria, não fosse a falta d'Ela em quem tudo é música... Vejo que mudei... Até quando não quis, eu mudei. Contra isso não há fortaleza. Mas, ainda tem daquele passado aqui e desse presente lá, quando eu não passava de futuro, todos juntos, e, por isso, mais fortes, embora alquebrados. Somos nós agora. Um robusto. Eu e todos os eus que o remetente nesse espelho fincou no mundo. 

sábado, 19 de outubro de 2013

Intervalo

Textos, trabalhos … não hoje, não nesta manhã. Tem uma vida aqui dentro e lá fora ruindo ente monólogos e cadeiras enfileiradas. Hoje eu quero cansar as vistas relendo memórias! Quero por os pés na paisagem que emudece, quero mais daqueles suspiros que fragilizam passos; hoje eu quero ver o dia lá de fora, das árvores, de onde a doutrina se perde no roteiro dos ares. Dosar cor e sorrisos nos olhos, entende? Essa coisa que não cabe ao ensino porque não é do ensino a tarefa de sentir. Isso a gente faz com o verbo calado na língua e o ruído do mundo no arrepio da pele. Ei! Hoje, eu digo não ao muito pensar e para o ter que me dispor. Não, para o que me cabe em agonia, mas não em desafino. 

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Pensando bem, vale um atraso na largada para a noite, uma peleja contra hábito. Ter os consolos de um instrumento nos primeiros passos e, no percurso, um convite para aquelas conversas de esquina, papel e caneta. Um capricho. Vale, depois de rendidos os pés, pendido relógio e sentido, descobrir que pelo pouco caminhar fez um desvio no trajeto por onde passa o cansaço, e que já não importa desejar pódios que não deem o que ponteiros atrasados dariam. 

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Quatro luzeiros acesos sobre a serra anunciam a tua imprudência; e a tua surdez, o que faz destes gritos? O que em ti resiste? Eu os vi velando a noite. Seus cortejos não sensibilizam os teus ouvidos envaidecidos por palanques. Que direi dos teus olhos? Vazados por conchavos. Mas, guarda teu descaso, pois, esse brado que insiste vem a galope e sua marcha desordeira marcará fundo o teu semblante; atingirá até os mais céticos da tua horda. Rapina que é, mergulhará rasante e suas penas ventilarão as mentes mais néscias desta nau. Importa que eu te lembre para que não sejas ainda mais estranho aos teus sentidos e, mal acolhido, arremeta voo para longe no espaço. Irá para onde vinhos vagabundos e sedas amassadas lhe deem abrigo, como aqui hoje o fazem. Nestas casas, o lamento tem valor de troca e compram a liberdade em episódios de embriaguez. O quanto te falta Musa, de embriaguez? Quanto sobrou da tua ousadia? Hasteia-a quando te alcançar o grito. Não deixe ileso do teu amparo o que nasceu em justiça à tua causa. Junto a eles, põe-te por luzeiro-mor. Já não agrada tanto inverno. É preciso florescer.

sábado, 27 de julho de 2013

Careço, desesperadamente, de um signo que me ponha em descanso na vida. Um verso, um estrofe que forje um lugar de repouso; ponha em suspenso esse barulho que tem sido o nada em busca de vir a ser. Eu suponho que será a letra o guarda desta casa que há dias sofre do que desconhece; será juíza e semblante deste fantasma. Mas, estou cá às voltas... Que rima ela fará com o que sequer audiência obteve? Que forma dará ao que prescinde contorno? Talvez no fim, e sem sucesso, ela me ofereça um engano; uma mentira que me seduza o desejo. E já cansado, eu decalque o que pouco diz de mim, mas que me salva do silêncio.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Notícias de cá


Tem faltado eu nisso tudo Maria! Tem faltado pele, sereno, lágrimas e riso conjugados. Tem faltado poemas e aquelas conversas que a gente não interrompia pelo cansaço que é pensar no amanhã. Falta espaço, porque viver aqui concorre com a rotina, o texto, o trabalho e com o resto das coisas que eu, escravo de tudo, tenho sido convocado a fazer. Ando cansado. Mas não de sorrir, ou desse céu, testemunha dos meus dias sobre altares do Governo. Vacilo no que supomos, massivamente, ser viver. Entregues a tantos afazeres Maria, vejo mais vida naquilo que a tarefa sustenta do que em mim, pião deste tabuleiro. E, a bem da verdade, é colossal o que ela sustenta... Enquanto nós, seguimos às sombras de promessas morosas. Há de se buscar um sentido para a vida, afinal, é isso que também nos enche os pulmões. Mas, que nos encha o suficiente, sem predicados desnecessários, para que lá na frente, quando o que te escrevo for revisto, reste a certeza de que não há no rosto um só lamento por dias nos quais deixei que a hora passasse sem que passasse por mim.