quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Um dia no divã

Quando com dores pari o primeiro buquê de restos, fiz festa com o que sobrava de mim. Mal cabia no mundo aquele delito, tão pouco cabe nessa casca de retalhos que alimento. Era preciso outro lugar. O rejeito de anos vinha desautorizando o plano, a regra, a convenção de há tempos. Talvez por isso seu nascimento viera com tamanho estardalhaço. Para sua chegada fiz sorriso de lã, sapatos macios e contenção nos olhos. Os dois primeiros como bom anfitrião; o último, por costume de face seca e por força necessária. A língua não preparou rima: quis o caminho aberto para os primeiros passos, deixar escorrer a denúncia. E foi tanto o que escapou que pensei estar eu inteiro ali. Decifrado. Exposto pelo privilégio de ser o que não cabe na forma, na hora, na conta de ser-pensado, pensante, falado.

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